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BrasilLuto sem corpoAngústia, sofrimento, dúvidas: sentimentos daqueles que se sentem enlutados mas nunca puderam enterrar seus entes queridos
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Marcos Rosa, Alexandre Vieira, Fábio Marçal, Robson Regato
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Mais do que pele e ossos o corpo morto é a parte não renovável da existência, a prova cabal, irrefutável de que não há mais vida. Sem ele, a morte não se consolida, fica em aberto, e a vida não se ressignifica. “É como se a morte não se encerrasse para reabrir ciclos vitais. Tudo fica em suspense”, explica o antropólogo e professor José Márcio Barros. Sem a comprovação do que tendemos a não admitir, Ivanise viveu a desestabilização da família, separação do marido, hipertensão, infarto e toma 16 comprimidos por dia. “Toda família enterra os restos mortais de seus entes queridos. Têm a certeza de quem morreu. Mas eu, vou morrendo aos poucos.” Em agonizante dúvida, prefere acreditar que a filha está viva; é o que lhe diz o coração. Ao mesmo tempo, saber que Fabiana morreu seria resposta para colocar fim à busca. Vistos por uns como morbidez, mas fundamental em nossa cultura para atestar que algo se encerra, os rituais de passagem, a exemplo de velório, enterro e luto, são processos simbólicos, despedida de quem nunca mais voltará e ao mesmo tempo não será jamais esquecido. A partir da cerimônia em torno do corpo os vivos querem enfrentar a morte, sentir-se tranquilos e apaziguados. |
Mas a ausência da matéria – que faz mais sentido para os vivos do que para o próprio morto – pode dificultar a realização dos rituais pela falta do que ajuda elaborar a morte, absorver a perda. “É como se quem morreu, não tivesse morrido direito. Ou até mesmo estivesse vivo. Para quem ficou, o luto não passa e a imaginação, no caso de familiares dos desaparecidos, pode prevalecer e parece que a vida transcorre fora da realidade”, avalia o professor de filosofia Sérgio Murilo Rodrigues. No luto sem corpo, a presença do ausente se intensifica. É neste refúgio imaginativo que transcorre o que a psicóloga e tanatóloga Marília Carneiro chama de ano do pensamento mágico. “É o primeiro Natal, aniversário, Ano Novo, datas, sem a pessoa. Parece que a qualquer hora ela pode voltar, mesmo que seja impossível.” Sensação prolongada, ilusões alimentadas, paralisa-se no evento e entra-se no que os especialistas chamam de luto complicado. O imaginado e não-aferido vira fantasma. É essencial administrar as dores. Jorge Luiz Silveira Souza, 53 anos, irmão de Hilton Jadir está tentando. Recorre à fé, tenta consolar os pais idosos, tem plena consciência do que está consumado. Mas a tragédia sem vestígios aprofunda a dor. “Minha angústia é tão grande! Mas tenho esperanças de encontrar o corpo de meu irmão. Iria nos consolar e aliviar. Se passarem 5, 10 anos, onde estará este corpo? Acho que as sequelas vão ficar para sempre.” Morrer, ainda mais assim, complica a vida. As perdas trazem grandes mudanças. Até mesmo sob aspectos legais. Como emitir atestado de óbito para mortos sem corpo? E os desaparecidos, o que são? Se tinham bens, que fazer deles? Se o morto era provedor, como requerer pensão? É o desafio de aprender, sob duras penas, novas condições. Enfrentar a são? É o desafio de aprender, sob duras penas, novas condições. Enfrentar a burocracia. O advogado e diretor do departamento de direito de família do Instituto dos Advogados de Minas Gerais, Luiz Fernando Valadão Nogueira, explica que na falta do corpo, o que há é probabilidade da morte; a morte presumida, para a qual a abertura de processo que leva de 5 meses a 10 anos (caso de pessoas tidas como desaparecidas) é inevitável. |
Jornalista e professora universitária, Carla Mendonça, irmã de Marco Mendonça, está com a vida de pernas para o ar. Não tem esperanças de reaver os restos mortais do irmão e cabe a ela estar em contatos permanentes com a Air France e órgãos da Polícia Federal. Fornecer amostras de DNA para possível identificação do corpo do irmão. Vasculha a casa de Marco em busca de escovas de cabelo, de dente ou quaisquer objetos úteis ao caso. “Me vejo como se estivesse participando de seriado norte-americano. Não ter o corpo muda tudo.” * Desde a década de 70 a enfermeira aposentada Criméia Alice Schmidt de Almeida vive filme de terror. Ex-guerrilheira presa em 1972, estava grávida, enfrentou tortura, afastamento do bebê que amamentava e o sumiço do companheiro André Grabois, do sogro Maurício e o cunhado Gilberto. Nunca viu o corpo deles e, para piorar, outra forma de tortura foi ouvir que teriam se tornado colaboradores do regime que combatiam na época. O que lhes garantiria, hoje, a vida em anonimato. “Meu luto é eterno. Prefiro imaginar que morreram em combate que torturados. Mas convivo com ele exigindo esclarecimentos, punições, informações. É preciso conhecer os fatos para reverenciar a vida e respeitar a memória deles,” diz Criméia. Autora do livro Do luto à luta e também coordenadora do grupo de Apoio a Perdas Irreparáveis, Gláucia Rezende Tavares, afirma que é preciso representar a despedida destas relações. “Pode ser organizando álbum de fotos, na escrita de um livro, elaboração de CDs. Lidar com o vazio, o silêncio, com o mistério.” Apesar de a morte ser a única certeza da vida, somos alienados dela. Esquecemos que tudo que nasce, morre. O luto sem corpo exige ritualização para assimilar o que não tem materialização. * O corpo de Marco Mendonça foi encontrado no primeiro final de semana de julho, após o fechamento da edição 16 da Viver Brasil. |