Quinta, 17 de Maio de 2012
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Luto sem corpo

Angústia, sofrimento, dúvidas: sentimentos daqueles que se sentem enlutados mas nunca puderam enterrar seus entes queridos

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Marcos Rosa, Alexandre Vieira, Fábio Marçal, Robson Regato


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Há quase um ano e dois meses o carro da engenheira Patrícia Franco foi encontrado baleado, caído numa ribanceira do Rio de Janeiro. Marco Mendonça, engenheiro, 44 anos estava no voo 447, da Air France, que decolou dia 31 de maio, do aeroporto do Galeão com destino a Paris e caiu no mar próximo a Fernando de Noronha. No mesmo voo estava Hilton Jadir Silveira Souza, 51 anos, funcionário da Petrobras. André Grabois, Maurício Grabois e Gilberto Olímpio foram guerrilheiros no Araguaia na década de 70. Em 1996, Fabiana Espiridião da Silva, 13, foi até a casa de uma amiga. Nunca mais voltou. Todas estas pessoas têm em comum um fato que coloca interrogações na vida de seus familiares: onde estão seus corpos? Os desaparecidos estão vivos? Que fazer sem o corpo deles?

É o que se pergunta incessantemente Celso Franco, pai de Patrícia. Até o fechamento desta edição o corpo da jovem não havia sido localizado. “Não temos dados, só hipóteses, hipóteses, hipóteses. É uma angústia, não consigo fazer mais nada”, lamenta o irmão, Adriano Franco. A mesma dor, há 14 anos, é parte da rotina da mãe de Fabiana, Ivanise Espiridião da Silva Santos. “Onde está minha filha? Se está viva, por que ninguém viu? Se está morta, cadê o corpo? Às vezes penso que ela pode estar viva. Não quero morrer sem saber o que aconteceu.”


Celso Franco, pai de Patrícia, com a mulher Tânia: “É uma angústia”
Celso Franco, pai de Patrícia, com a mulher Tânia: “É uma angústia”

Mais do que pele e ossos o corpo morto é a parte não renovável da existência, a prova cabal, irrefutável de que não há mais vida. Sem ele, a morte não se consolida, fica em aberto, e a vida não se ressignifica. “É como se a morte não se encerrasse para reabrir ciclos vitais. Tudo fica em suspense”, explica o antropólogo e professor José Márcio Barros.

Sem a comprovação do que tendemos a não admitir, Ivanise viveu a desestabilização da família, separação do marido, hipertensão, infarto e toma 16 comprimidos por dia. “Toda família enterra os restos mortais de seus entes queridos. Têm a certeza de quem morreu. Mas eu, vou morrendo aos poucos.” Em agonizante dúvida, prefere acreditar que a filha está viva; é o que lhe diz o coração. Ao mesmo tempo, saber que Fabiana morreu seria resposta para colocar fim à busca.

Vistos por uns como morbidez, mas fundamental em nossa cultura para atestar que algo se encerra, os rituais de passagem, a exemplo de velório, enterro e luto, são processos simbólicos, despedida de quem nunca mais voltará e ao mesmo tempo não será jamais esquecido. A partir da cerimônia em torno do corpo os vivos querem enfrentar a morte, sentir-se tranquilos e apaziguados.

Jorge, irmão de Hilton que estava no voo 447 da Air France: “Tenho esperança”
Jorge, irmão de Hilton que estava no voo 447 da Air France: “Tenho esperança”

Mas a ausência da matéria – que faz mais sentido para os vivos do que para o próprio morto – pode dificultar a realização dos rituais pela falta do que ajuda elaborar a morte, absorver a perda. “É como se quem morreu, não tivesse morrido direito. Ou até mesmo estivesse vivo. Para quem ficou, o luto não passa e a imaginação, no caso de familiares dos desaparecidos, pode prevalecer e parece que a vida transcorre fora da realidade”, avalia o professor de filosofia Sérgio Murilo Rodrigues. No luto sem corpo, a presença do ausente se intensifica.

É neste refúgio imaginativo que transcorre o que a psicóloga e tanatóloga Marília Carneiro chama de ano do pensamento mágico. “É o primeiro Natal, aniversário, Ano Novo, datas, sem a pessoa. Parece que a qualquer hora ela pode voltar, mesmo que seja impossível.” Sensação prolongada, ilusões alimentadas, paralisa-se no evento e entra-se no que os especialistas chamam de luto complicado. O imaginado e não-aferido vira fantasma. É essencial administrar as dores. Jorge Luiz Silveira Souza, 53 anos, irmão de Hilton Jadir está tentando. Recorre à fé, tenta consolar os pais idosos, tem plena consciência do que está consumado. Mas a tragédia sem vestígios aprofunda a dor. “Minha angústia é tão grande! Mas tenho esperanças de encontrar o corpo de meu irmão. Iria nos consolar e aliviar. Se passarem 5, 10 anos, onde estará este corpo? Acho que as sequelas vão ficar para sempre.” Morrer, ainda mais assim, complica a vida. As perdas trazem grandes mudanças. Até mesmo sob aspectos legais. Como emitir atestado de óbito para mortos sem corpo? E os desaparecidos, o que são? Se tinham bens, que fazer deles? Se o morto era provedor, como requerer pensão? É o desafio de aprender, sob duras penas, novas condições. Enfrentar a são? É o desafio de aprender, sob duras penas, novas condições. Enfrentar a burocracia. O advogado e diretor do de­partamento de direito de família do Instituto dos Advogados de Minas Gerais, Luiz Fernando Valadão Nogueira, explica que na falta do corpo, o que há é proba­bilidade da morte; a morte presumida, para a qual a abertura de processo que le­va de 5 meses a 10 anos (caso de pessoas tidas como desaparecidas) é inevitável.

Ivanise Santos, com foto da filha: “Não quero morrer sem saber o que aconteceu”
Ivanise Santos, com foto da filha: “Não quero morrer sem saber o que aconteceu”

Jornalista e professora universitária, Carla Mendonça, irmã de Marco Men­don­ça, está com a vida de pernas para o ar. Não tem esperanças de reaver os res­tos mortais do irmão e cabe a ela estar em contatos permanentes com a Air France e órgãos da Polícia Federal. Fornecer amostras de DNA para possível identificação do corpo do irmão. Vasculha a casa de Marco em busca de escovas de cabelo, de dente ou quaisquer objetos úteis ao caso. “Me vejo como se estivesse participando de seriado norte-a­me­ricano. Não ter o corpo muda tu­do.” *

Desde a década de 70 a enfermeira aposentada Criméia Alice Schmidt de Almeida vive filme de terror. Ex-guerrilheira presa em 1972, estava grávida, enfrentou tortura, afastamento do bebê que amamentava e o sumiço do companheiro André Grabois, do sogro Maurício e o cunhado Gilberto. Nunca viu o corpo deles e, para piorar, outra forma de tortura foi ouvir que teriam se tornado colaboradores do regime que combatiam na época. O que lhes garantiria, hoje, a vida em anonimato. “Meu luto é eterno. Prefiro imaginar que morreram em combate que torturados. Mas convivo com ele exigindo esclarecimentos, punições, informações. É preciso conhecer os fatos para reverenciar a vida e respeitar a memória deles,” diz Criméia.

Autora do livro Do luto à luta e também coordenadora do grupo de Apoio a Perdas Irreparáveis, Gláucia Rezende Tavares, afirma que é preciso representar a despedida destas relações. “Pode ser organizando ál­bum de fotos, na escrita de um livro, elaboração de CDs. Lidar com o vazio, o silêncio, com o mistério.” Apesar de a morte ser a única certeza da vi­da, somos alienados dela. Esque­ce­mos que tudo que nasce, morre. O lu­to sem corpo exige ritualização para assimilar o que não tem materialização.

* O corpo de Marco Mendonça foi encontrado no primeiro final de semana de julho, após o fechamento da edição 16 da Viver Brasil.


 
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