Morgana Dark é uma estrela: dançarina, atriz, produtora e diretora, seu último filme, no qual é protagonista, acabou de ser premiado. Por conta do sucesso que não é recente, criou a grife MB. Slogan: liberte a Morgana que existe dentro de você. Apresenta, na internet, o programa Sala Vip, e seu blog recebe quase 3 mil visitantes por mês. Escreveu um livro, participou do filme 12 horas Antes do Amanhecer, com o ator norte-americano Brendan Fraser e, aos 30 anos, casada, espera o primeiro filho. Karen Bellini – Morgana para os íntimos – atua no segmento de cinema para adultos, cujos títulos, segundo a Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (Abeme), cresceram 15% nos últimos 5 anos e fatura 300 milhões de reais anuais. Nele, sexo anal com dupla penetração é tão corriqueiro quanto beijos da novela das oito. O gang bang (modalidade na qual uma mulher faz sexo com pelo menos dois homens), fetiches por longas botas de couro em situações de dominação, algemas, cintas-ligas, voyerismo e o chamado sexo hardcore fazem as vezes da encenação. E as produções têm nomes como Forró sem Calcinha (este dá pra citar).
Como diz Morgana em seu blog: “É uma nada mole vida” e profissionalismo é prioridade. Convidada para participar da produção norte-americana C... de Bêbada Não Tem Dono, queriam que bebesse. Recusa na certa: “Pra que preciso beber pra interpretar uma bêbada?” Também não usa xilocaína ou dorflex para aliviar os músculos nas cenas de sexo anal: “Nada a ver. Isto é psicológico. É questão de relaxar e concentrar.” Estudou na escola de teatro Célia Helena e capricha nas performances: “É preciso transmitir prazer a quem assiste. Mas tem atriz que faz cara de nada... E o próprio mercado não enfatiza as expressões faciais. É mais a corporal e a capacidade de aguentar sexo pesado.” Não vive conflitos e considera a participação de atores da grande mídia como Alexandre Frota – com quem fez Invasão de Privacidade – positiva para o mundo pornô, que ganhou certo glamour. No entanto, fica triste quando celebridades declaram arrependimento: “Isto nos atrapalha.”
O produtor de filmes pornográficos, Edson Strafite, 32 anos, trabalha no ramo há 15. Ingressou quando estava prestes a se formar em jornalismo e receber, de cara, 4 vezes mais que seus colegas recém-formados. Segundo ele, são as mulheres a cereja, o sorvete e o chantilly deste bolo. E se, há mais ou menos 6 anos, era necessário convencê-las primeiro a participar do filme, depois a mostrar o rosto e finalmente gastar horas levando-as ao salão, hoje, chegam nas locações depiladas, pés, mãos e cabelos cuidados. Fazem higiene íntima, são maquiadas e depois assistem a vídeos eróticos pra entrar no clima das cenas. É a preparação para o início de um dia de trabalho.
Nele, em geral, não há espaço para histórias com roteiros mirabolantes, muitos diálogos e firulas. O que o público, predominantemente masculino, quer ver é penetração em mulheres de grande traseiro e gemendo, avisa Strafite. No Brasil, seios ficam em segundo plano, apesar de nossa indústria pornô seguir padrões norte-americanos, inclusive exportando filmes e abolindo o uso dos preservativos. E os fetiches são os mais comunzinhos mesmo: a cunhada, a mãe do amigo e por aí vai. Nestes moldes, Festa Anal rendeu prêmio no Erotika Video Awards (EVA) 2009 à atriz Cinthia Santos, mãe de um garoto de 3 anos. Profissional dedicada, formada em nutrição, estuda inglês com professor particular, frequenta academia 2 horas, 3 vezes na semana. Faz bronzeamento artificial, toma shakes e cápsulas que proporcionem vigor. Muda a alimentação 5 dias antes de gravar. Corta pizzas ou alimentos gordurosos. “Se tenho um paquera, nada de baladas na véspera das filmagens. Dá olheiras.”
“A atriz tem que gostar de sexo, de provocar quem assiste e não fazer só pelo dinheiro. Assim nascem os talentos.” A opinião enfática é do diretor Gil Bendazom, um dos sócios da produtora Platinumplus, que lança 8 títulos por mês e uma das 3 maiores do país. “Ela vai começar a cena arrumada e terminar suada, descabelada, derretida. Isto é transar.” Como bom romântico, prioriza cenas de casal, não dispensa o beijo e o olho no olho. “Não dá pra um olhar a parede e o outro para o teto. Paro a gravação no máximo uma vez. Quem está assistindo tem que imaginar que pode fazer aquilo. Tem que parecer natural.”
Do imaginário para o concreto, as garotas do pornô enfrentam preconceitos e carregam má fama. Elas rompem com o revestimento romântico, mostram o que causa espanto em atividade sexual desvinculada de paixão. “Por isto costumam ser negativamente julgadas pelos moralistas de plantão”, avalia o psiquiatra e psicanalista Stélio Lage. Na prática, podem ser olhadas com má vontade por vizinhos, receber ligações ameaçadoras e ver o movimento de seu pequeno comércio cair vertiginosamente. “Os fregueses pararam de frequentar meu mercadinho”, conta Sarah Lopez, 24, menos de um ano de carreira e surpresa com a indicação de atriz revelação pelo EVA. Desfeitas à parte, nada que desanime a garota, que leva o marido às filmagens. “Se não me saio bem, ele fala. Dá palpites e faz críticas. Ela não esconde: a grana é boa e a vida deu uma melhorada.
Que o diga Leila Lopes, 14 novelas no currículo e também conhecida como a professorinha Lu, da novela Renascer, na Rede Globo. A atriz viu os dias de trabalho e dinheiro garantidos retornarem desde que estrelou Pecados e Tentações, produção da Brasileirinhas dirigida pelo Spielberg do ramo, J. Gaspar. “Tava no marasmo, sem trabalho. De repente, as pessoas voltaram a me pedir autógrafos, saio na Caras, estou apresentando o Calcinha Justa – sátira ao Saia Justa conduzido pela jornalista Mônica Waldvogel –, tenho dois filmes engatilhados e a peça Só Entre Nós, para estrear no final do ano. Toda minha vida está recuperada, ando de cabeça erguida, sem dívidas.” Mesmo criticada pelo autor de telenovelas Walcyr Carrasco por meio de blog, Leila acredita que tudo isto só aconteceu por conta do pornô: “Relembraram da Leila Lopes.”
Como num jogo de bate e sopra funciona a pornografia. É um paradoxo, que atrai e repudia pela exposição daquilo que na vida dita politicamente correta seria inconfessado. Como a constatação do diretor belo-horizontino residente em Londres, especializado em filmes para gays, Guy Hunter, 29 anos e 4 trabalhos feitos para a Playboy pela produtora Stripes Media: “O xixi é o novo preto.” Traduzindo o que na moda significaria mania novidadeira, ocorre igualmente no pornô e pelas mesmas razões: a monotonia. No fim das contas é sempre mais do mesmo. É tudo vuco-vuco.
Nesta movimentação o mineiro Hunter, que não trabalha com atores profissionais, tem corrido o mundo; já filmou na África e Leste Europeu. “Na Hungria, os atores vão acompanhados pelas namoradas, que ficam esperando eles gravarem.” No Brasil viveu a pior experiência: “Meu contato aqui não repassava a grana para os atores. Embolsou a maior parte e na hora de trabalhar tive que literalmente buscar garotos de programas nas esquinas.” Bye, bye, Brasil.
Parado na rua por fãs que o interrogam sobre como consegue segurar a ejaculação por tanto tempo, o petropolitano Rogê, 38 anos de muita concentração, foi eleito o melhor ator de todos os tempos do pornô nacional. Se para as mulheres esta fama traz dificuldades, para ele são glórias. Invejado pelos homens, admirado por elas, outro dia ouviu em alto e bom som enquanto estava a caminho de uma feirinha de antiguidades uma moça dizer que assistia a seus filmes e se masturbava. “Tenho meu lado tímido, e como estava perto de outras pessoas, tomei certo baque.”
Viagras, Cialis e afins fazem parte das rotinas de gravação; “super-homem só mesmo nos filmes”. No entanto, seu desempenho é famoso e ele diz que nasceu para isto. Conta que, ao se identificar com a mulher com quem contracena, se entrega, as cenas ficam bonitas e transmitem coisas boas. Nos dias em que não está com vontade de fazer sexo entra em cena o que chama de sex machine. “Aprendi a conhecer meu corpo, dominar a mente. São 12 anos gravando.” Por ele já passaram Rita Cadilac, Mônica Santiago, Vivi Ronaldinha, Márcia Imperator (do Teste de Fidelidade, da Rede TV!), Julia Paes e tantas, tantas outras que somam quase 2 mil parceiras. Mas seus dias de garanhão estão contados em favor de uma marcenaria que quer abrir com o padrasto. Antes pretende ir para os Estados Unidos em 2010, trabalhar um ano e se aposentar. “Apesar dos exames que todos apresentamos antes das cenas, até hoje tenho receio da aids. Rezo todos os dias e peço a Deus por mim e meus amigos. Por isto vou parar.”
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