Quinta, 17 de Maio de 2012
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Cidades da Copa 2014

Torcida dividida

Porto Alegre respira Copa do Mundo e a maior polêmica gira em torno do estádio: o Beira-Rio é o oficial, mas a Arena tricolor não quer deixar por menos

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Divulgação/ Daniel de Cerqueira


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Perspectiva de como ficará o Beira-Rio e seu entorno

Acaba o jogo em Porto Alegre. Há vencedor, mas a peleja do vencido continua fora dos gramados, estende-se aos tapetes vermelhos das instituições governamentais, às pranchetas de arquitetos na pressa de erigir uma arena, seduzir os olhos de representantes da Fifa e tentar dividir com o adversário, nos últimos minutos dos acréscimos, jogos da Copa de 2014 sacramentados para o Beira-Rio, do Sport Internacional Club ou, ao menos, servir de apoio às seleções. A capital gaúcha respira futebol, transpira rivalidade entre os seus dois times campões mundiais, donos de campos de futebol, que nem a copa aplaina os ânimos: o Grêmio sem estádio aprovado, com a torcida ferrenha da governadora Yeda Crusius, do prefeito José Fogaça, do vice José Fortunati, e com o projeto da Arena, a área reservada à espera de aprovação dos licenciamentos. O Internacional com o gostinho de vitória e o palco quase pronto, mas vai se esmerar mais ainda para ver a bola deslizar em impecáveis gramados, arquibancadas estendidas, fora obras no seu entorno à beira do lago Guaíba, que já teriam sido planejadas antes mesmo da Copa se aportar por aqui.


Neste clima de disputa exposta para quem quiser ver, assistir, participar, se intrometer, a revista Viver Brasil foi até Porto Alegre, segunda matéria da série Cidades da Copa 2014. Transmite o que viu, ouviu, sentiu ao amigo leitor num clima de cordialidade aparente, discórdia sincera. Não há meio campo, é lá, cá, sem posse para fotos pacíficas entre os adversários. “Meu estádio é de concreto, o dele é de papel”, diz Emídio Marques Ferreira, vice-presidente de Patrimônio do Internacional. Provoca que as obras do time adversário são para isenção de impostos.


“Já havia projeto de reforma do Olímpico (atual estádio). Com a Copa se aprofundaram os estudos e resolvemos pela construção da Arena. Será de Primeiro Mundo e a mais moderna da América Latina”, devolve Adalberto Preiss, presidente do Conselho de Administração da Grêmio Empreendimentos. As obras devem começar no início do próximo ano e serem concluídas em dezembro de 2012, antes da Copa das Confederações, um ano e meio do campeonato mundial, ao custo total de 1 bilhão de reais. “Se algum estádio não tiver cumprido as exi­gências da Fifa, aí pode entrar a Arena. Corremos por fora”, reforça Flávio Antônio Paiva, vice-presidente do time tricolor. Há fôlego dele, da governadora, do prefeito, do vice José Fortunati, que também é secretário extraordinário da Copa (Secopa). É, lá há essa entidade, com representantes do governo estadual, municipal e da sociedade civil para preparar Porto Alegre a ancorar a competição. “Somos um estado partido, de empate técnico, com dois times campões do mundo e a única cidade que terá dois estádios com padrões exigidos pela Fifa”, afirma Fortunati, sem esconder a bandeira do Grêmio e exibir a lista de cidades em que houve dois estádios na Copa.

 

Unicidade nas alturas, de maior e melhor torcida, do melhor pôr-do-sol e de rivalidade crescente que não mete medo no adversário, tranquilo no pódio.  “A Fifa não quer elefante branco, nem se mete em briga politiqueira”, ataca Emídio Ferreira. Está com os projetos de reformas para atender aos pedidos de igualar em tamanho as casamatas (bancos de reserva), os vestiários, hoje maiores o do time da casa. “É só diminuir.” Arrumar a iluminação do estádio e aumentar o número de vagas de estacionamento de 5 mil para 8 mil. “Os jogos serão durante o dia e só haverá acesso para a área vip. Os outros torcedores terão de deixar o carro a 2 km do estádio. Para que isto?”

Confira os bastidores desta matéria no Blog da Redação.


Projeto da Arena do Grêmio: investimento de 1 bilhão de reais
Projeto da Arena do Grêmio: investimento de 1 bilhão de reais

Mas o Internacional vai extrapolar as regras da Fifa, sair dos limites do campo e se esparramar pelos seus domínios à beira do Guaíba, no projeto Gigante para Sempre, nome apropriado às grandezas sulinas. Haverá três torres, com hotéis,centros médicos e de compras, marina, saídos de pranchetas dos arquitetos Fernando Balvedi, Gabriel Garcia e Maurício Santos. Não por mera coincidência torcedores do time colorado. O Grêmio arranca atrás, quer passar à frente, com sua Arena, que vai substituir o Olímpico Monu­men­tal, de 55 anos, no bairro Humaitá, próximo ao aeroporto Salgado Filho, numa área de 37 mil m². Em 8,9 mil m² será construída a Arena e no restante centro de convenções, hotel, shopping, 10 mil vagas de estacionamento. Numa disputa de grandezas sem precedentes e vitoriosos aparentes: vai depender do lado em que estará a torcida, a não ser alguém apartidário, de fora dos limites dos pampas gaúchos.

“Porto Alegre ama futebol, tem essa tradição”, diz José Fortunati, o que vê como uma das virtudes para ser sede da Copa. Não mente, por todos os lados em que se vá tem alguém a falar de futebol, a dar palpites, a espezinhar o adversário. “Dizem que táxi aqui é vermelho. Mas para mim é alaranjado”, tenta convencer o taxista Dilson André Bittencourt, que se pudesse teria carro azul, branco e preto do seu Grêmio. Provocações que se estendem ao Mercado Público, no centro histórico, um dos pontos turísticos da cidade. Só se afinam no atendimento aos visitantes, sem deixar de expor as preferências de times logo na primeira conversa; no apontar de problemas da cidade: o trânsito. Obras de duplicação da avenida Beira-Rio, que dá acesso ao estádio do Internacional, construção do metrô do centro ao campus da Pontifícia Universidade Ca­tólica, viadutos começam a sair do papel.

“Acredito que a mobilidade será resolvida com estas obras”, diz o vice-prefeito. Vão se esmerar para conter a violência crescente na cidade, com a contratação de policiais, e preparar funcionários de hotéis e taxistas. Dílson, o do carro alaranjado, vai fazer curso de inglês e se avalia apto, como os outros 4 mil taxistas, a ajudar os turistas nacionais ou estrangeiros no que for preciso.

A equipe da Viver Brasil acabou por fazer teste da Copa sem querer: o repórter fotográfico Daniel de Cer­queira esqueceu flashes no carro do taxista Nilo An­driotti. Voltou ao ponto, o taxista Marino da Silva Damasceno se dispôs a ajudar, ligou do seu celular, dispensou corridas até localizar o companheiro e achar os equipamentos. “Acho que a cidade precisa de ajustes no trânsito, a construção do metrô. Tudo estará ajustado até lá”, diz Damasceno. Andriotti cobra mais segurança. “A população tem de estar atenta é para não haver corrupção. Precisa cobrar, acompanhar”, comenta Emídio Ferreira, vice-presidente do Internacional.

O atendimento aprovado se estende aos de bares sofisticados do bairro Moinhos de Vento; a intervalo no Cais Mauá, que será revitalizado por 500 milhões de reais, a andar pela orla do lago Guaíba, antes definido como rio, ao parque da Redenção. Volta-se ao jogo, ao da disputa entre os dois times, sem resultado compatível nem para um, nem para ouro, nem em época de Copa de Mundo. O consenso não mora lá, é a Copa de três bandeiras: brasileira, colorada e tricolor.

Emídio Ferreira, no Beira-Rio: “Meu estádio é de concreto”
Emídio Ferreira, no Beira-Rio: “Meu estádio é de concreto”

Por denro do Beira-Rio

- 54 mil a capacidade atual
- 62 mil depois das obras
- 18 suítes hoje, 70 após a modernização
- 5 mil vagas de estacionamento, 8 mil na época da Copa
- 80 câmeras de seguranças
- 38 mil m² de área total quando implementado o projeto
Gigante para Sempre
- 2 obras: reformulação do estádio e construção do complexo Gigante para Sempre, onde haverá 3 torres com hotel, centro de medicina esportivo, shopping, marina e estacionamento
- De 100 milhões a 130 milhões de reais o custo do aprimoramento do estádio. Ainda não há previsão do gasto com as obras do entorno

Fonte: Internacional

José Fortunati: “Somos um estado de empate técnico”
José Fortunati: “Somos um estado de empate técnico”

Copa vai a Porto Alegre. Confira os pontos positivos e negativos da capital gaúcha

De goleada

- O ambiente é favorável. A cidade é apaixonada por futebol

- Há preocupação com a questão ambiental, um dos requisitos da Fifa. A cidade tem 1,2 milhão de árvores, 100% da população recebe água potável. Mas há um porém: só 27% da rede de esgoto é tratada
O que será feito:
Investimento de 580 milhões de reais para que até a Copa 77% da rede de esgoto seja tratada

- A infraestrutura urbana tem boas redes de hotéis, restaurantes e atendimento à saúde

Hotéis:
47 mil leitos em 21 mil unidades numa região de 150 km no entorno de Porto Alegre. Na capital há 13 mil leitos em 7 mil estabelecimentos
O que será feito:
5 novos estabelecimentos de alto e médio padrão serão construídos até 2014 na cidade, o que deverá elevar o número de leitos para mais de 16 mil

 Restaurantes:
 3,5 mil restaurantes, lanchonetes, bares e cafés
O que será feito:
Não há previsão de quantos novos estabelecimentos serão criados

Hospitais:
3.080 leitos em hospitais públicos e 404 em UTIs 767 leitos privados e 29 UTIs
O que será feito: Requalificação e melhoria na capacidade de atendimento, compra de equipamentos de última geração. Serão investidos 4 milhões de reais no hospital de Pronto-Socorro

Copa vai a Porto Alegre. Confira os pontos positivos e negativos da capital gaúcha

Na retranca

- Há deficiência em segurança pública. O número de policiais (brigadistas como são chamados lá) é inferior aos padrões exigidos. Hoje há 1.100 policiais, quando deveriam ser, no mínimo, 2.500 para população de 1,4 milhão de pessoas. Não existe delegacia voltada para turistas
O que será feito:
Aumentar o efetivo policial, criar delegacia do turista próxima ao estádio Beira-Rio

- Locomover-se pela cidade começa a ficar difícil. Há pontos de congestionamentos na área central e na região do estádio Beira-Rio. A tal mobilidade urbana, produto desta época em todas as metrópoles

O que será feito:
Retirada de parte dos 3 mil coletivos do centro da cidade.
Construção de 12,5 km de metrô
Duplicação da avenida Beira-Rio
Obras viárias na Terceira Perimetral, que liga a zona sul ao aeroporto Salgado filho.
Melhoria da BR-448, rodovia do Parque, que liga o Vale dos Sinos a Porto Alegre

- Fechamento para decolagens e pousos no Aeroporto Internacional Salgado Filho por causa de neblina nos meses de junho e julho, época da Copa. No dia 17 de julho, em que a reportagem estava na cidade, das 68 partidas, 14 foram canceladas e 20 atrasadas. Das 59 chegadas previstas, 14 foram canceladas e 25 atrasadas no período entre 10h e 15h.
O que será feito:
Ampliação de 900 m da pista para a colocação de sistema antinevoeiro, que permite operações com baixa visibilidade. Mais de 3 mil famílias vão ser removidas de duas vilas na cabeceira para o Porto Seco.
As obras devem começar até o início de 2010

Fonte: Secretaria Extraordinária da Copa (Secopa)

Marino Damasceno e Nilo Andriotti: boa acolhida
Marino Damasceno e Nilo Andriotti: boa acolhida

Cidade em 3X4

- 1,4 milhão de pessoas
- 497 m² de área territorial
- 20,9 mil reais é o PIB per capita, a terceira maior renda entre as 12 capitais que vão sediar jogos da Copa. Fica atrás de Brasília e São Paulo
- 0,865 é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M)
- 3.927 é a frota de táxi
- 3,36 reais é a bandeirada
- 2,30 reais é a passagem de ônibus
- 19 graus é a média de temperatura máxima em junho

Fonte: IBGE, Secopa


 
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