A casa como extensão do ser. Projetos vivos, personalizados e com alma. Uma visão holística que contempla o planeta como algo vivo e não apenas uma grande hospedaria. Usar os recursos naturais de forma consciente sem impactar o meio ambiente. Habitar o planeta de forma harmoniosa, evitando desperdícios, reciclando, dialogando com as condições peculiares de cada local e com as estações. “Formas arquitetônicas mais orgânicas estimulam a sensibilidade e um pensar mais amplo”, defendia Rudolf Steiner, pensador austríaco. O conterrâneo Hundertwasser, arquiteto, acreditava que a degradação do meio ambiente também degrada a alma humana e que, por isso, é preciso resgatar a beleza presente nas formas, materiais e elementos da natureza.
A arquitetura sustentável virou uma atitude de vida. Os arquitetos Carlos Solano e Celso Borges, que assinam o projeto da Casa da Montanha, localizada no condomínio Pasárgada, denominam esse tipo de construção de casas-ponte. “Acredito que o momento da arquitetura mundial é o de fazer casas que sejam ponte para uma realidade ecológica, que ainda não existe, mas que precisa ser atraída. As vantagens são principalmente o conforto ambiental e a economia”, pontua Solano.
Ele cita como exemplos dessa arquitetura o tijolo de adobe que, por causa da inércia térmica, mantém a temperatura da casa sempre agradável em tempos de aquecimento global. Uma boa ventilação e iluminação podem dispensar o uso de aparelhos elétricos. O aquecimento solar, comprovadamente, gera economia em curto prazo na conta de luz. “E o melhor é que cada vez mais se verifica a influência de formas e materiais usados na arquitetura sobre a saúde das pessoas e das cidades”, argumenta o arquiteto.
O casal de médicos João Henrique Penna Reis e Tarina Rubinger abandonou há dois anos o apartamento no bairro Santo Agostinho e se mudou para a Casa da Montanha, projeto acalentado com carinho e grande preocupação ambiental. “Sinto que estamos contribuindo para a sustentabilidade do planeta. É indescritível acordar e respirar ar puro, colher verduras e frutas orgânicas. Nossa opção teve muito a ver com o nascimento dos nossos gêmeos, Cristiano e Estêvão, hoje com 4 anos. Queríamos que eles tivessem uma vida mais livre, saudável e em contato com a natureza”, comemora Tarina.
O casal optou por incorporar uma enorme parede que separa a sala da área de cozinha e serviço, toda de adobe, feito com a terra local. Eles usaram ainda ecobloco, tijolo de resíduos da construção civil e que pode reduzir o custo da obra em até 30%. As paredes externas, em tom mais ferruginoso, foram pintadas com tinta artesanal feita com a terra dali mesmo, do seu quintal. Ou seja, custo quase zero. As portas, janelas e escadas são de material de demolição, o que evita o consumo de madeiras novas. E tem aquecimento solar na piscina, nos chuveiros e em todo o piso da casa.
Outro que resolveu apostar em sistemas alternativos de construção é o empresário, Fernando Pena, que tem casa no condomínio Vila Del Rey.O terreno tem 5 mil m2 e grande desnível. Pensando em reduzir o custo com água, ele planejou um sistema de captação para molhar os jardins. Enterrou duas caixas no solo, sendo que a primeira alimenta a segunda com a água coletada da chuva e a segunda é alimentada também com as águas do chão e das pias dos banheiros. “Estamos diante de um elemento que vai se tornar ouro com o passar dos tempos”, prevê. Pena produz ainda o adubo consumido em seus jardins e hortas. Todo material orgânico gerado no próprio terreno como folhas, podas e cortes de grama são usados para fazer compostagem. “O meu critério é não desperdiçar nada. No futuro pretendo fazer um minhocário para melhorar a qualidade do adubo.”
No condomínio Vale do Sol, Flávio Negrão, diretor de meio ambiente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, e sua mulher, Camila Alterthum, optaram pela arquitetura que dialoga com o meio ambiente. “Nossa casa é um laboratório de experimentações e materiais garimpados em ferros-velhos, demolições, caçambas de entulhos, materiais reciclados e de descarte.” Localizada em uma área de cerrado, o projeto preservou as espécies nativas como mirtáceas, barbatimão e jacarandá do cerrado. A casa não tem nada de convencional. É autêntica, tem alma. O telhado é de telha reciclada de tubo de pasta de dente e o forro é de placas de tetrapak, isso mesmo, feito de embalagens recicladas. O piso é de taco de demolição.
E para contrariar o ditado santo de casa faz milagre sim. Negrão que assina seu primeiro projeto de casa sustentável, no caso, a sua, assume que esse é um desafio. “Eu não apenas projetei, mas moro nessa casa com minha mulher e meus dois filhos. No dia-a-dia fui aprendendo com a casa, descobrindo novos materiais, sanando eventuais problemas e buscando novas alternativas. O custo final da obra foi menor que o previsto, isso porque fizemos muita garimpagem de material e pesquisa de preço. A parte mais cara de uma construção, o acabamento, ficou bem em conta porque optamos por elementos alternativos e ecológicos”, contabiliza.
Pegando carona no pensamento de Eilleen Caddy, co-fundadora de Findhorn, ecovila escocesa onde o arquiteto Carlos Solano morou, “não podemos deixar de ver o caos atual, mas podemos decidir não ser parte dele e, sim, dar resposta para ele”. Ações pontuais que, somadas, podem fazer a maior diferença para o planeta que desejamos legar para nossos filhos. Gerações que vão aprender não em livros, mas através de exemplos.