Quinta, 17 de Maio de 2012
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Meio Ambiente - Entrevista

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Um dos coordenadores do Projeto Manuelzão e médico Antônio Matta Machado acredita que somente uma profunda mudança de mentalidade em termos mundiais pode salvar o planeta

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Pedro Vilela


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No mês em que se comemora o dia internacional do meio ambiente e com a gripe suína batendo à porta, o ser humano parece viver mais um de seus grandes momentos de interrogação histórica. Some-se aí a crise mundial e uma sucessão de acontecimentos que evidenciam mais que mudanças climáticas; verdadeiras catástrofes. Em 2008 incêndios dizimaram florestas na Austrália. No Brasil, enchentes destruíram cidades inteiras na região Sul e desde o mês passado o Nordeste, sempre castigado com seca, sofre com chuvas. As interrogações são inevitáveis: para onde vamos? O que está acontecendo? Se a maior parte da humanidade começa a se alarmar, em 1997 um grupo de professores de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) percebeu o que hoje se anuncia e fundou o Projeto Manuelzão, que tem como uma de suas prioridades recuperar o rio das Velhas de forma que o mesmo obtenha classificação II: poder ser utilizado para navegar, nadar e pescar. Um dos coordenadores do projeto, o médico Antônio Thomaz Gonzaga da Matta Machado, concedeu entrevista exclusiva à revista Viver Brasil na qual o tema ambiente extrapola os rios para refletir e propor mudança de mentalidade. Segundo ele, já vivemos verdadeira crise ambiental, tão significativa quanto à econômica. E as ameaças, ao contrário do que se pensa, não são para o planeta, mas para os seres humanos, inclusive com risco iminente ao que nos é mais caro: a dignidade.

Desde quando o meio ambiente é afetado pelo ser humano de maneira destrutiva?
Desde que, para obter energia, dispensou-se o braço humano e a força dos animais foi substituída pelo carvão, vapor, petróleo. Com a Revolução Industrial a interferência passou a acontecer em nível planetário, as florestas foram devastadas e hoje temos pontos que caracterizam uma crise ambiental.

Que pontos seriam estes e quais suas consequências?
O primeiro é o efeito estufa. A seguir o lixo; o mundo está envenenado! Você come uma salada e está comendo veneno. Por fim, a água, fundamental, mas escassa em algumas áreas e para muitas populações. O resultado é a perda da biodiversidade. E isto é um fato. De cem anos pra cá 25% das espécies de peixes, 12% de mamíferos e 10% de aves desapareceram.

Como o mundo moderno, que vive assentado nas atividades econômicas que se baseiam em consumo, pode ser sustentável?
Não pode. É impossível continuar a produzir e consumir tanto. Este modelo está esgotado.

De que modo saúde e meio ambiente se relacionam?
O ser humano reflete sua relação com o ambiente. A gripe suína é um exemplo. Mike Davis (professor de História da Califórnia, especialista nas relações entre urbanismo e meio ambiente) escreveu um artigo (no jornal Guardian em abril deste ano) no qual constata que em 1965 havia, nos EUA, 53 milhões de porcos espalhados por mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões destes animais concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos debilitados. Ou seja, estas criações são fábricas de vírus mutantes. Assim aconteceu com a vaca louca. Deram proteína para a vaca e criou-se distúrbio que ninguém conhece direito.

Recentemente começou a ser veiculada campanha que incentiva as pessoas a fazerem xixi no chuveiro, na hora do banho, o que economizaria muitos mil litros de água/ano por pessoa.
Atitudes individuais são importantes porque é preciso mudança de hábito, de mentalidade. Esta ideia do xixi vem dos ingleses, que gastam horrores de água. Mas aqui, as próprias companhias de saneamento são as que mais desperdiçam: quase 46%. De acordo com dados do Ministério das Cidades, a que menos desperdiça está em 27%. E é considerada eficientíssima. É ridículo!

E o Brasil, em que pé estamos em relação às práticas e políticas em relação ao meio ambiente?
A crise ambiental está na agenda, na mídia, mas não é prioridade. A não ser em três lugares, que traçaram metas: Inglaterra, Nova Zelândia e, por incrível que pareça, agora a China. Aqui, estamos discutindo, economicamente, quanto custa fazer isto ou aquilo. Mas a questão não é esta, é como fazer: uma destinação mais moderna, avançada da coleta de lixo, por exemplo. Transformar o lixo orgânico em adubo e devolver resíduos sólidos para setores produtivos. Dinheiro não é problema, mas a mentalidade. É fazer cumprir leis. Não é debater quanto derrubar ou não da floresta Amazônica e sim partir para a criação de centro de produção científica que seja referência internacional. É gerar recursos sem destruir.

Dia 5 de junho comemora-se o dia internacional do meio  ambiente. Temos o que comemorar?
Acho que sim, sou otimista. Uma hora vai ocorrer a virada, pois estamos à deriva, e isto é bom pra nos interrogar em relação ao Universo. Já há quem fale em biocivilização.


 
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