Do Café Medroso ao Jantar
Reportagem da Viver Gourmet passa um dia em Mariana, primeira capital de Minas Gerais, deliciando-se com a típica culinária mineira
O casarão é do século XVIII. A dona da casa, Maria Amélia de Queiroz Silva, é moderna, alegre e falante. Gosta de pintar telas e cozinhar. Casou, teve filhos, descasou e viu o mundo se libertar de tabus comportamentais. Na cozinha, porém, mantém o mesmo ritual secular da mãe, Maria Valentina Vieira de Queiroz, a dona Tita, descendente dos primeiros portugueses que migraram para Mariana, a 116 quilômetros de Belo Horizonte. Passa horas fazendo bolos e doces em tachos de cobre. As receitas saem do caderno herdado da tia, de 1936, escritas à mão, quando xícara era chamada de chávena. Aos 58 anos, Maria Amélia preserva vivas tradições da culinária de Mariana, conhecida pelo casario e igrejas históricas.
“Faço tudo à moda antiga. Aqui não tem nada industrializado. Até o leite condensado é feito em casa”, conta. Maria Amélia foi uma das fontes do projeto Sabores de Mariana. Realizada pela Associação Comercial da cidade, com patrocínio do Programa Monumenta, Unesco/ BID, Ministério da Cultura e Iphan e apoio da prefeitura, a iniciativa teve como finalidade resgatar as tradições gastronômicas. Durante vários meses no ano passado, a jornalista Dalva Rejani dos Reis Pereira e a historiadora Margareth Vesac Marton percorreram casarões do município e casas simples dos distritos desvendando hábitos alimentares. O estudo culminou com um livro de receitas antigas e histórias curiosas.
“A culinária da região tem forte presença de pratos com milho, como angu, broa e cuscuz. Esse hábito tem origem no Brasil colônia. Como a região era de mineração, o solo era pobre. Em vez de trigo, era melhor cultivar o milho, de fácil plantio e rápida colheita”, atesta Dalva dos Reis. Ao longo da história, segundo ela, a culinária sofreu influência não só dos portugueses, mas de ingleses, árabes e italianos. Exploradores de minas de ouro no distrito de Passagem de Mariana, os italianos introduziram pratos como nhoque e lasanha. Os ingleses trouxeram iguarias como o cake, bolo com frutas que na simplicidade do linguajar local ganhou o nome de keca. “Descobrimos outras curiosidades. Café valente, para marianenses, é aquele servido sozinho, escuro e forte. Já o medroso vem com quitandas, como broas, biscoitos de polvilho e queijo”, conta a pesquisadora.
A fim de conferir os sabores de Mariana, a reportagem da Viver Brasil cumpriu roteiro gastronômico na cidade. O dia começou com café da manhã no hotel-fazenda Aconchego do Campo, instalado em casarão centenário, às margens da Estrada Real, no distrito de Santa Rita Durão. “Aqui todos os produtos são feitos em casa, menos o pão francês”, avisam os proprietários Adriana e Wanderley Müller. Há 28 anos em Mariana, Adriana aliou à culinária regional receitas de sua família de Gouveia, no Vale do Jequitinhonha. “Minha avó criou os filhos fazendo quitanda. Fui a única neta que herdou o gosto pela culinária”, diz.
O resultado da paixão da empresária foi posto à mesa servida em charmoso carro de boi transformado em aparador na varanda. Broa com fubá de moinho d´água , sequilhos, quebra-quebra, rosquinha de nata, rosca de canela, pães caseiros e pão de queijo são algumas das iguarias. Para completar, queijo, requeijão, leite tirado na hora e geleias preparadas com frutas fresquinhas da época.
Terminado o delicioso café “medroso”, foi a vez de pegar estrada para almoço no Lua Cheia, centro de Mariana. O restaurante funciona em imóvel do século XVIII, tombada pelo patrimônio histórico, revitalizada pelas empresárias Otília Maria dos Santos e Marly Therezinha Alves, com parte dos recursos obtidos pelo BID, por meio do Projeto Monumenta, do Ministério da Cultura. O interior da antiga residência, com fachada original, deu lugar a dez espaços arrojados, como lounge, sala zen, com sofás para descansar, cafeteria, pomar com mesas ao ar livre, playground e sótão com piano.
O cardápio, servido em sistema de bufê, inclui massas, carnes grelhadas e sortidas opções de saladas. Pratos da cozinha mineira – claro – são estrelas: tutu, tropeiro, linguiça e carnes de porco (costelinha e lombo), caldos e frango com quiabo e angu. O ora-pro-nóbis, que em Mariana ganhou o nome de lobrobó, é outra atração. Durante o dia, a cozinha é comandada por Maria Castilha, cozinheira da terra que aprendeu os segredos mineiros com a mãe. Os temperos, ela colhe na pequena horta do restaurante. Quem passa por lá não pode deixar de provar a famosa banana da terra assada com bacon. 8
À tarde, depois de passeio pelas ladeiras, não faltam alternativas para merendar e se divertir. Uma delas é o café colonial servido no Teatro de Marionetes do artista Catin Nardi, única sala do Brasil própria para encenação de bonecos. Lá, além de assistir a espetáculos, os turistas podem visitar o ateliê onde o artista dá oficinas. Argentino radicado desde os anos 1980 no Brasil, Catin tornou-se conhecido nacionalmente pelos trabalhos realizados para a novela As Filhas da Mãe e a minissérie Hoje É Dia de Maria, exibidas pela Rede Globo.
Em dias de semana, Catin apresenta po–cket shows no teatro à tarde para grupos a partir de quatro pessoas. Depois é servido café, que deve ser agendado com antecedência (veja quadro). Na mesa, bolo, biscoito caseiro, queijo, pão de queijo e broa de fubá. A única iguaria que foge das tradições mineiras é o pão integral, preparado pelo próprio artista.
Fim de tarde, hora de contemplar o anoitecer da cidade, com as luzes acendendo nas igrejas e casarões. Noites de outono chegam cedo, quando as temperaturas começam a baixar em Mariana. Bom convite para degustar um prato quente, encerrando o roteiro gastronômico. O destino foi o Bistrô, simpática casa decorada com os princípios do feng shui. A dona do restaurante, a marianense Berenice Pinheiro Moreira Rolim, é quem recebe os clientes e as opções de pratos são fartas. Comida mineira, pizzas, peixes, carnes, massas e porções.
A pedida foi batata recheada, que vem fumegante em 16 sabores à escolha do freguês, como palmito, calabresa, frango, bacon, brócolis, quatro queijos, camarão e atum. Vale experimentar também o filé com arroz à piemontesa. Berenice diz que nunca fez curso de cozinha, aprendeu tudo olhando mãe e avó fazerem pratos e, assim, vai reiventando novos sabores para a Mariana do século XXI.
Gestor da Associação Comercial, que realizou o projeto Sabores de Mariana, Heliélcio Jesus Vieira diz que a entidade planeja conceber um festival gastronômico na cidade, nos moldes do famoso evento da boa mesa de Tiradentes. Mas, enquanto o sonho começa a ser engatinhado, vale a visita aos sabores da charmosa cidade mineira, primeira capital do estado.
Sugestão de sobremesa: Colchão de noiva*
Ingredientes:
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1 lata de leite condensado feito em casa
(pode ser substituído pelo industrializado)
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1 litro de leite
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4 colheres de sopa de maisena
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3 ovos
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4 colheres de açúcar refinado
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rodelas de abacaxi ou banana cortada em lascas (de preferência caturra)
Como fazer:
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Faça primeiro uma calda com açúcar queimado. Forre uma travessa com a calda e as fatias de abacaxi ou banana. Com o leite condensado, a maisena, o leite e as três gemas de ovo, prepare um creme no fogão. Deixe o creme esfriar e jogue-o em cima da calda e das frutas. Em seguida, bata as claras em neve com quatro colheres de sopa de açúcar. Leve a travessa ao forno para dourar. Se quiser, pode acrescentar gotas de essência de baunilha no creme. Assim que esfriar, leve a geladeira.
*A receita faz parte do cardápio do almoço de domingo de Maria Amélia de Queiroz desde a infância
Roteiro de Sabores
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Hotel-fazenda Aconchego do Campo – Distrito de Santa Rita Durão, localizado a 22 quilômetros do centro de Mariana, com trecho de estrada de terra. Telefones para contato: (31) 3556-7014 / 8659-1615 / 8404-4456
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Restaurante Lua Cheia – rua Dom Viçoso, 58, centro de Mariana. Telefones: (31) 3557-3232 / 9661-1020
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Teatro Marionetes – rua do Seminário, 290, centro. O teatro funciona das 9h às18 h, de segunda a sexta-feira. Nesses dias, são promovidos pocket shows para grupos acima de quatro pessoas. Sábado fica aberto até o meio- dia. Aos sábados e domingos podem ser agendados para a noite espetáculos para grupos acima de dez pessoas. Para agendar café da tarde, o telefone é (31) 3557-3927
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Bistrô Restaurante – rua Salomão Ibrahim, 61, praça Gomes Freire, centro. Telefones: (31) 3557-4138/ 1919