A desigualdade brasileira tem 2 metros de altura e 500 de comprimento. É cinza, está num terreno íngreme e quase não se vê, mas desenha uma linha reta entre dois extremos sociais. De um lado, casas com piscinas e quadras de tênis quase se escondem sob a densa mata atlântica. Do outro, mais de 100 mil pessoas amontoam-se em barracos de dois, três pisos, que formam o que era até outro dia a maior favela da América Latina. Quando construído em 1985, o muro cinza de um palmo de largura não gerou nenhuma polêmica. Foi erguido calma e silenciosamente durante dois anos (de 83 a 85), com mão-de-obra do morro, ajuda de três mulas e financiamento de moradores do bairro Alto Gávea. O objetivo era conter o crescimento da Rocinha e proteger o parque Dois Irmãos, no sopé da pedra cartão-postal do Rio de Janeiro.
Vinte e quatro anos depois, ele se mantém ali, incólume, protegendo a vegetação, resguardando o terreno dos grã-finos do Alto Gávea e delineando os confins de uma favela que nunca parou de crescer. Como os próprios moradores da Vila Paraíba, na Rocinha, o muro cinza esteve esquecido durante duas décadas, até ganhar um breve espaço no noticiário desde que o governo do estado do Rio de Janeiro anunciou, em abril de 2009, a construção de novos (e maiores) muros nas favelas para proteger a mata e conter a expansão dos barracos. O projeto custará 40 milhões de reais.
A notícia dos novos muros – um deles já erguido no morro Dona Marta – alcançou proporções internacionais. A ONU se pronunciou de maneira contrária, o escritor português José Saramago criticou o projeto, o jornalista Zuenir Ventura sugeriu cercas vivas, especialistas em direitos humanos estão com os cabelos em pé e ambientalistas defendem que a mata atlântica precisa ser protegida a qualquer custo. Muros sempre geram polêmica.
Mas ao contrário dos muros novos, o muro velho passa despercebido. Moradores vizinhos da Vila Paraíba não se queixam e pouco se vê do tal paredão. Ao pé do morro Dois Irmãos, numa ladeira abrupta e irregular, a divisória está dominada pela mata de um lado e pelos barracos do outro. Sua melhor visibilidade talvez seja de cima, numa imagem satélite do google maps, ou do alto da laje de morador, que viu de camarote sua construção quando a Vila Paraíba mal existia. “Aqui tudo era verde, mata densa mesmo. Vi o pessoal queimar tudo para construir os barracos”, conta Marquinho Severiano, morador da Rocinha há 26 anos e paraibano como a maioria dos esquecidos que dão nome a essa região da favela. Do alto da laje de sua casa, a vista é de suspirar. Cristo Redentor, lagoa Rodrigo de Freitas, mata atlântica, morro Dois Irmãos, Vila Paraíba e, com o olhar apurado, partes do tal muro cinza. Poucas partes. Lá em cima, perto do campinho, e lá embaixo, perto do Clube Umuarama vê-se alguns pedaços. No meio, o único que se vê claramente é a linha da desigualdade brasileira.
Para chegar ao muro, nessa parte de fim-de-mundo da favela, o acesso é difícil. Escadas estreitas e mal desenhadas, construídas pelos próprios moradores, dão passo a crianças descalças e subnutridas. Uma fonte de água natural, que sai da Pedra Dois Irmãos, escorre por uma viela-esgoto no meio da Vila Paraíba. O lixo se acumula pelos estreitos becos, já que naquelas escadarias não existe coleta de lixo.
Ali, numa pirambeira, vive Severina, paraibana de Campina Grande, que chegou na Rocinha há 16 anos, quando o muro velho já existia. No primeiro andar de sua casa, há uma distância de 30 centímetros entre o muro e a parede. O segundo é um pouco maior e está construído sobre o muro. “Quando cheguei aqui, não tinha água e luz e já era assim, os pedaços da casa sobre o muro.” Severina é analfabeta e trabalha como doméstica em Botafogo. Tem carteira assinada e lhe faltam dentes na boca.
Sua vida na Rocinha foi feita ao lado do muro, mas ela nunca se importou muito com esse metro e meio de tijolo e cimento que a separa da mata atlântica. Como vários outros moradores da favela, ela nunca pulou a mureta para ir à selva pegar uma fruta ou fazer um piquenique. “Tenho medo dos bichos que existem aí na mata”, comenta a bem-humorada mãe de dois meninos. Ela não viu o muro ser construído, mas o viu ser reconstruído. “Essa parte aqui”, conta ela mostrando parte do paredão abaixo da sua casa, “foi reconstruída há ano e meio. Caiu com as chuvas e com o lixo.”
Antônia Maria da Conceição não teve medo de cruzar o país atrás de novas oportunidades, mas tem medo da chuva e da mata. “Minha casa está caindo, morro de medo quando chove. Tenho medo também dessa mata aí, nunca entrei.” Ela chegou antes do muro. Viu ele ser construído, viu partes caírem e serem reconstruídas. Viu que, como sua própria casa, o muro às vezes cai.
Antônia, Severina e Marquinho vieram para o Rio numa época em que não se falava em impedir o crescimento das favelas. “Na década de 80, a administração estava nas mãos do Brizola, e ele foi um grande incentivador das favelas no Rio. Ele tinha o projeto chamado Cada família, um lote, em que prometia regularizar a situação fundiária de todas as favelas da região. Os moradores escreviam cartas para parentes no Nordeste dizendo para virem pra cá”, lembra Luiz Fernando Penna, morador há 25 anos do Alto Gávea e diretor de urbanismo da associação de moradores do bairro de classe média alta. Foi justamente nessa época que ele e alguns vizinhos fizeram uma vaquinha para erguer o muro. “Quando o muro foi construído, havia uma distância de 100 metros para os barracos.” Hoje, muro e barracos se confundem.
“Damos manutenção. Pode acontecer duas vezes por ano, ou podem passar três anos sem nada. Quando algo acontece, é por deslizamento de terreno ou uma árvore que cai”, conta Luiz Fernando. Bisneto de paraibanos, mas daqueles que a vida colocou do lado rico do muro, ele esclarece que nunca teve problemas com os moradores da Rocinha. “Sou muito conhecido lá (na favela) e sempre tive uma relação perfeita com os moradores.”
O muro tem dois buracos. Um feito por uma moradora da Rocinha, cujo quintal faz divisa. Ela decidiu abrir uma portinha para a mata (infelizmente não tinha ninguém em casa para contar essa história, mas parece ser das poucas moradoras que curtem a selva vizinha). O outro fica numa pirambeira, quase no final do muro, a poucos metros do paredão do Dois Irmãos. Luiz Fernando conta que o campinho já existia antes de começarem as obras. “Fiz acordo com eles que o muro acabaria no meio do campinho, com o compromisso de que eles não construíssem depois do campinho. Eles mantiveram a palavra.”
Do lado pobre do muro, Carlos Naval, guia e diretor executivo da Associação de Moradores da Rocinha, escala comigo esses confins da favela e é contra a construção dos novos muros, como a maioria dos moradores do morro. A associação realizou uma enquete na região para saber a opinião da comunidade. Foram 1.056 votos contrários, 50 a favor e cinco nulos.
“Precisamos conter o avanço das favelas com programas habitacionais que deem melhores condições de vida para o pessoal. Esses 40 milhões de reais que o governo vai gastar deveriam ser investidos em educação e saúde. Muro é segregação”, opina Naval. No entanto, os muros que o governo do estado planeja construir na Rocinha são na parte oeste da favela, onde os barracos fazem divisa com a mata atlântica – e somente com a mata. Diferentemente do muro velho, que faz divisa com bairros grã-finos e termina por criar um obstáculo ainda maior entre pobres e ricos.
A Associação de Moradores da Rocinha critica o fato de o governador Sérgio Cabral não ter escutado a população antes de começar as obras e propõe, no lugar do muro, o que eles chamam de ecotrilhas. “Seria uma espécie de ciclovia, iluminada e pavimentada, que circundaria a favela e permitiria uma maior integração”, afirma Antônio Xaolim, presidente de uma das associações de moradores da Rocinha. E essa é a história dos muros. Enquanto os novos geram polêmica no mundo inteiro, o muro de 24 anos atrás se mantém firme e forte, desenhando a linha tênue da desigualdade brasileira. Ele recebe mais atenção e cuidados que os próprios moradores da Vila Paraíba.