\"Antes de me despedir, deixo ao sambista mais novo, o meu pedido final: não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar...”
Os compositores da canção que se tornou o hino do samba na voz de Alcione já morreram. Mas o pedido de Edson e Aluísio foi atendido. Afinal, o samba não só não morreu, como está mais vivo que nunca. O ritmo, de origem africana, saiu do morro, pulou os muros dos terreiros, ganhou ruas, avenidas e tornou-se produto nacional de exportação. E hoje, não resta dúvida de que o samba é preferência nacional. Não estranhe se, ao sair para uma balada, você escutar Adoniran Barbosa, Noel Rosa ou Ary Barroso. É isso mesmo, quem garante vida longa ao gênero mais antigo de todos é um público cada vez mais jovem. Meninos e meninas de 20 e poucos anos redescobriram a tradição e fazem dela presença garantida em casas noturnas, encontros de amigos, festas e programas de fim de semana.
Mas, afinal, o que faz esses jovens curtirem uma música cantada pelos pais e avós? “O samba é tudo de bom, o ritmo é ótimo para dançar e a letra boa de cantar”, responde a fisioterapeuta Marina Neubuss, 26 anos, frequentadora assídua dos sambas da capital mineira. Ela explica que além da música de qualidade, outros fatores contribuem para tornar os redutos do samba atraentes para a moçada. “É um ambiente tranquilo, sem briga ou confusão e que tem sempre gente bonita”, comenta.
A opinião é compartilhada pela colega de profissão Carolina Justi, 28 anos. Carioca, ela veio a Belo Horizonte para participar de um Congresso de Fisioterapia. Dentro da programação do evento estava o samba da Utópica Marcenaria. Carolina se surpreendeu com a qualidade do samba mineiro. “Está no mesmo nível da Lapa”, compara. As conterrâneas cariocas, Mariana Cunha, 26, e Virgínia Beni, 25, que participavam do mesmo evento, concordaram. Elas contam que o samba é o programa certo do final de semana. “São locais descontraídos, com pessoal bonito, interessante, onde a gente pode dançar e se divertir”. O estudante de direito, Bruno Cunha, 30, acrescenta: “Além do alto astral, é o local ideal para tomar uma cerveja com os amigos e ouvir uma boa música.”
Estaria então o samba na moda? “Não, pois, ele nunca esteve fora de moda”, responde o crítico musical Zuza Homem de Mello. O musicólogo compara o samba no Brasil ao tango na Argentina. “Nunca cairá no ostracismo.” No entanto, ele admite uma efervescência do gênero nos últimos anos. Para ele, é a descoberta do samba por uma geração que estava adormecida. “São jovens que cresceram numa cultura dominada pelo rock e que estão se dando conta da importância do samba para a música brasileira”, avalia.
Ao percorrer algumas das principais casas noturnas de BH que tocam o ritmo, a reportagem da Viver Brasil percebeu muitos meninos e meninas antenados, conhecedores da história e dos grandes nomes da música. Mas não são todos. É curioso observar que muitos dos jovens presentes nos estabelecimentos sequer fazem ideia de quem foram Adoniran Barbosa, Ary Barroso, Ataulfo Alves ou Noel Rosa. Mesmo assim, a maioria tem na ponta da língua as canções como Trem das Onze, Ai que Saudade da Amélia, Com que roupa?.... O que para Mauro Zockratto, vocalista da banda Copo Lagoinha, já é motivo de comemoração. “O fato de ver a garotada cantando músicas que os pais e avós cantavam é muito gratificante”.
Para o professor de Cultura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Eduardo Granja Cunha, a valorização atual do samba é uma forma de reafirmação da cultura brasileira. “Em vários momentos da história, a música foi usada como resistência ao movimento de globalização e à imposição da cultura americana”. Pesquisador e autor do livro Velhas Histórias, Memórias Futuras – uma biografia de Paulinho da Viola – o pesquisador afirma que a perpetuação do samba se deve também às transformações que o gênero passou ao longo dos anos. Em seu surgimento, o samba era perseguido pela polícia, tido como revolucionário. “Até que um dia Getúlio Vargas o legitimou como música nacional e ele acabou se tornando artigo de exportação”, lembra o professor. À medida que a classe média, a juventude intelectualizada de Copacabana fez do samba sua música de protesto, ele foi ascendendo socialmente, até chegar à unanimidade nacional, agradando a todas as classes sociais.
Marcelo Roxo, vocalista da banda Fidelidade Partidária, afirma que esse não foi um processo que se deu do dia para a noite em Belo Horizonte. “Há dez anos, quando começamos, o samba de raiz, com composições de Cartola e João Nogueira, não era muito difundido na região centro-sul. De uns quatro anos para cá, percebemos que as pessoas descobriram o samba em BH”, conta, se referindo à abertura de casas de samba em toda a cidade e ao surgimento de novas bandas.
O professor Eduardo Cunha destaca que, para a tradição se perpetuar, é preciso que ela se transforme, se reinvente. “Senão vira peça de museu”. Por isso, segundo ele, é importante que surjam novos intérpretes, bandas e outras formas de fazer samba. “As raízes são preservadas, mas a leitura é renovada.” E é exatamente esta a proposta da banda Odilara, formada por 8 jovens da capital mineira. “Nós tentamos dar um formato mais moderno para os clássicos do samba”, explica Eurípedes Neto, músico da banda. Para ele, essa nova roupagem agrada bastante o público, que é formado em sua maioria por jovens, na faixa dos 20 a 30 anos.
Já a vocalista Andréa acredita que é a mescla do repertório com sambas tradicionais e modernos o segredo para agradar a todos. “Nos shows, tentamos misturar clássicos de Noel Rosa, Cartola, Paulinho da Viola com músicas de Seu Jorge, Jorge Ben Jor, Roberta Sá e Maria Rita”. E a alternância do novo com o antigo é mais do que aprovada pelos amigos Francklin Araújo, 30 e Guilherme Guimarães, 26. “É o ambiente mais brasileiro possível, descontraído”, diz Guilherme. Já para Francklin a paixão é herança de família. “Minha mãe cozinhava ouvindo Clara Nunes”, conta orgulhoso.
Solange Leite, proprietária do Cartola, uma das casas mais tradicionais do samba na capital mineira, acompanhou de perto o ingresso da juventude no samba. “Há 15 anos, quando abri o primeiro bar, meu público era formado basicamente pela terceira idade. Aos poucos, os jovens foram se interessando, vindo com os pais e avós”. Esse foi o caso da estudante Talita Costa, de 22 anos. Apesar da pouca idade, ela frequenta sempre o Cartola e outras casas de samba. “O gosto está no sangue, minha família adora e eu também”, garante a menina, antes de voltar para a pista de dança. Quem também estava bem animado na pista era o casal Fernanda Vieira, 24, e Ênio Ferreira, 31. Entre uma dança e outra, eles confessaram: “É um programa ótimo para se fazer sozinho, a dois, com amigos...” O consagrado Dorival Caymmi tinha mesmo razão ao afirmar: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é... É ruim da cabeça ou doente do pé.”