Quinta, 17 de Maio de 2012
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Comportamento

O normal é o natural

Ações isoladas, como a de pessoas com curso superior que abraçam a profissão de parteira, ajudam a mudar aos poucos um triste cenário: o Brasil é campeão mundial em cirurgias cesarianas

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Pedro Vilela


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Maternidade Sofia Feldman: parto pode ser feito dentro da água

Na Europa e nos Estados Unidos, as parteiras são referência. Lá, existem casas bem equipadas e movimento consolidado de humanização, que prioriza o nascimento natural. Intervenções, como a cesariana, só em casos comprovados de riscos à gestante ou ao bebê, restritas a 15% ou 20% do total, índice bem próximo dos 15% preconizados como ideais pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, ocorre o inverso: impera a cirurgia em quase 80% dos partos em hospitais privados. Na rede pública o índice também é alto, com média de 30% a 40%.

Quando se fala no assunto, muitos brasileiros ainda associam parteiras ao imaginário de experientes mulheres, que aprendiam o ofício na prática e o transmitiam entre descendentes. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde, existem cerca de 300 parteiras tradicionais atuantes em Minas Gerais. A maioria delas encontra-se na região do Vale do Jequitinhonha. Desde 2001 o estado reconhece o trabalho dessas mulheres, oferecendo-lhes cursos de aperfeiçoamento. “Elas foram capacitadas a identificar riscos, a estimular clientes a fazer o pré-natal, ganharam kit de material asséptico e passaram a ser elos das equipes médicas da região”, explica a obstetra Márcia Rovena de Oliveira, da Coordenação da Saú­de da Mulher, Criança e Adoles­cen­te.
Bem próximo dali, em Trancoso (BA), a parteira Maria da Glória Teixeira Conceição, 63, é referência local. Dona Glória, como é conhecida, já fez mais de 200 partos, desde que aos 21 anos abraçou a profissão da mãe, Maria Vieira, e da avó, Maria Teixeira. Com as parentes e mais as amigas Frozina, Maria de Irene, Engelina e Igina, dona Glória formava a equipe de parteiras da região. Hoje é a única em atividade, e é tão requisitada que já fez partos com a presença de tradutor, pois foi escolhida por turistas italianas, norte-americanas, alemãs e uma filipina para acompanhar o pré-natal e fazer o procedimento. Dona Glória tem estatística de causar inveja: nunca uma parturiente morreu sob seus cuidados. “Não havia hospital por perto, nem clínicas. Íamos até as casas a cavalo, de bicicleta, a pé, de carro, já fui até na garupa de moto, debaixo de sol ou chuva”, conta. 

Tal realidade vem ganhando ares contemporâneos. Seria uma espécie de volta às origens: enfermeiras obstetras utilizam todo o conhecimento para atuarem como parteiras profissionais, acompanhando gestantes de baixo risco. Foi o que aconteceu em dezembro passado com a nutricionista Andrea Santa Rosa, mulher do ator Márcio Garcia (o Bahuan de Caminho das Ín­dias). Ela escolheu ter em casa seu terceiro filho, Felipe, com a parteira profissional Heloísa Les­sa. O menino nasceu saudável, com 3,9 quilos. Na época, Andrea declarou que “a mulher que não faz um parto assim não sabe o que é parir.” Já a atriz e modelo Fernanda Lima é garota-propaganda de uma campanha de parto normal, depois que deu à luz dessa forma, em abril de 2008, aos gêmeos Francisco e João. “Sendo pessoas públicas e famosas, am­bas contribuem para quebrar pa­drões e mitos. Antina­tural é a cesaria­na”, diz a enfermeira obstetra Miriam Rego Leão,  parteira profissional que assiste partos domiciliares e em hospitais. Professora de obstetrícia e saúde da mulher da PUC Minas, ela faz parte do Movimento BH pelo Parto Normal, da prefeitura, e da ONG Bem Nascer. “Muitas práticas adotadas nos hospitais desfavoreceram que o par­to fosse um momento prazeroso e saudável para a mulher. Ele passou a ser uma vivência traumática, associada a processos cirúrgicos. Ago­ra partimos para um meio termo, modelo humanístico que utiliza toda a tecnologia disponível, mas que torna a mulher partícipe do processo”, conta Míriam.

Outra que atua ostensivamente para o fim da cultura da cesariana é Márcia Koiffman. Mãe de três filhos, todos nascidos naturalmente, a então advogada abandonou a carreira há 15 anos para se dedicar à enfermagem, com foco nas parturientes. Fez especialização e mestrado em obs­tetrícia. Há quatro anos fundou, em São Paulo, a Primaluz – Parteiras Profissionais, em parceria com a também enfermeira obstetra e doutoran­da Priscila Colacioppo. “Des­de então, são mais de 150 partos feitos, sendo que só eu tenho 600 na carreira, e Priscila, mais de mil.” A dupla conta com o apoio de dois médicos pediatras e uma ginecologista. A paciente pode escolher fazer o parto em casa ou em hospital.

Aliás, existem hospitais que oferecem a possibili­dade de realizar partos dentro d’água. É o caso do Sofia Feldman, em Belo Hori­zonte. A maternidade é pioneira em Minas Gerais ao instituir, em 2001, uma casa de parto na qual é priorizado o parto humanizado, com capacidade para 150 atendimentos por mês. A paciente pode escolher como ter o bebê, a melhor posição, ou se prefere métodos não farmacológicos para alívio da dor.

Mas e quando a futura mamãe escolhe o próprio marido para atuar como parteiro? Ao engravidar da segunda filha, Juliane, hoje com 23 anos, a médica pediatra Marli Cristia­ne da Silva tomou uma atitude ousada. Na época, ela cursava o primeiro semestre de medicina na UFMG. Comprou toda a literatura disponível e resolveu treinar seu marido para fazer as vezes de parteira. A decisão pegou de surpresa o engenheiro eletricista Marcelo Campi Lima, avesso a sangue e a ferimentos. “Aos poucos ela foi me convencendo. Meu maior medo era haver uma complicação de última hora.” Tudo correu de forma tranquila. Bruna, 20, a caçula do casal, também foi planejada para nascer em casa. Um descolamento de placenta, aos oito meses de gestação, levou a mãe ao hospital. “Sempre fui radical em minhas decisões. Hoje, se tivesse que repetir o que fiz, poderia até escolher uma parteira, mas com assistência técnica melhor, com aparelhos, em um centro de saúde com mais recursos. Continuo defensora do parto natural, convenço muitas pacientes a fazer o mesmo. Os movimentos dos músculos do canal vaginal sob o neném ajudam a expulsar os líquidos que ficam retidos no pulmão e vias aéreas do bebê”, diz a médica. A esta altura o leitor pode estar se questionando: e o parto da primogênita de Marli, como ocorreu? Foi com uma parteira, em Uruguaiana (RS). 


Galeria de Fotos

Marcelo Campi, com Juliane e Marli: parto sem complicação
Marcelo Campi, com Juliane e Marli: parto sem complicação

Diferenças

Parto normal

  • Rápida recuperação
  • Me­nos dor pós-parto
  • Menos complicações
  • Amamentação facilitada
  • Curto tempo de internação
  • Menor risco de o bebê nascer prematuro
  • Não-necessidade de separar mãe-bebê

Cesariana

  • Podem ocorrer complicações da anestesia e cirurgia
  • Pro­blemas de cicatrização (queloides)
  • Formação de gases
  • Hemorragias e infecções
  • Há chance maior de retirada do bebê do útero ainda prematuro
  • Riscos em futuras gestações, como ruptura do útero, placenta mal posicionada ou que não se desprende do útero
  • Abalo emocional de ter o filho separado do convívio nas primeiras ho­ras após o nascimento, o que desfa­vorece a amamentação
  • Risco de morte é 7 vezes maior para a mulher e 2 vezes maior para o bebê se comparado ao parto normal

 
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